A simple prayer to the Lord

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Gregor Gysi arrasa Schäuble no Parlamento alemão: «A sua política é anti-democrática»

Gregor Gysi arrasa Schäuble no Parlamento alemão.

«A Alemanha precisa mais do euro que a Grécia. E o senhor silencia isto, senhor Schäuble.
A sua política é anti-democrática. O senhor nega em absoluto a decisão do povo na Grécia e diz à população grega: ela pode decidir o que quiser, que o Sr. Schäuble decide no fim que as coisas se hão-de passar de outra maneira.O cúmulo da humilhação: o senhor quis transformar a Grécia numa nova Alemanha de Leste. Quis entregar a propriedade pública e o tesouro grego a uma Treuhandanstalt [nome da organização que assumiu a administração das empresas da antiga Alemanha de Leste e as privatizou com prejuízo] com sede no Luxemburgo. Só com a diferença, caro Sr. Schäuble, que, ao contrário da antiga Alemanha de Leste, a Grécia não se tornará parte da Alemanha. E além disso a Treuhand não obteve nenhuma libertação e arrasou até mesmo as empresas que produziam alguma coisa.Depois da Primeira Grande Guerra, a Alemanha foi obrigada a pagar 132 mil milhões de marcos de ouro em indemnizações – em dinheiro actual são 700 mil milhões de euros. Em 1953 teve lugar em Londres a conferência sobre a dívida alemã e nessa altura houve um corte na dívida. Fomos dispensados de 50% das indemnizações. E houve uma prorrogação em relação ao pagamento dos juros – nomeadamente até à reunificação alemã.

E a partir de 1990 tivemos que recomeçar a pagar. E pagámos a última prestação em Outubro de 2010. Chego a três conclusões:

1. Tivemos 92 anos para pagar.

2. Tivemos direito a um corte de 50%.

3. Tivemos direito a uma prorrogação de 37 anos. Não devíamos, eventualmente, reflectir sobre isto em vez de fingir que superámos tudo o que está para trás na nossa História?»

Uma factura detalhada para Angela Merkel

Recebido via Facebook

Ao insistir ser indemnizada pela Alemanha pelo que sofreu na II Guerra Mundial, a Grécia quebra um pacto tácito que esteve na base de 70 anos de paz na Europa.

Foi amplamente publicitado que o primeiro acto oficial de Alexis Tsipras, a 26 de Janeiro deste ano, imediatamente depois de ter tomado posse como primeiro-ministro da Grécia, foi depositar rosas vermelhas em Kaisariani, um antiga carreira de tiro nos subúrbios de Atenas onde, a 1 de Maio de 1944, 200 comunistas gregos foram fuzilados pelas tropas de ocupação alemãs, como represália pela morte do general alemão Franz Krech numa emboscada montada por guerrilheiros do ELAS, a facção de esquerda da resistência grega.

As vítimas do fuzilamento não tinham sido capturadas pelos alemães, eram prisioneiros políticos do regime do general Metaxas, que, após a invasão da Grécia, em 1941, tinham passado para custódia alemã. A represália pela morte de Krech incluiu também a execução de todo e qualquer homem grego apanhado fora das respectivas aldeias na região em que o general fora emboscado.

Não se tratou de um caso isolado: os alemães sempre foram implacáveis na resposta às acções da guerrilha grega. Mas a partir de 1943, para cobrir o vazio criado pela rendição italiana, começaram a surgir na Grécia unidades vindas da Frente Leste, onde tinham combatido o Exército Vermelho e a guerrilha e que não hesitavam em recorrer a métodos de brutalidade extrema, uma vez que a ideologia nazi considerava russos e ucranianos como seres inferiores. Em consequência, a ferocidade da repressão alemã contra os gregos intensificou-se.

Embora a ocupação nazi da Grécia tenha sido tragicamente assinalada por muitos outros massacres, alguns deles com mais vítimas do que o de Kaisariani, este tornou-se, sobretudo para a esquerda grega, num símbolo dos agravos entre gregos e alemães e o memorial lá construído até foi alvo de uma visita de um presidente alemão, em 1987. Muitos estadistas gregos já foram depor flores em Kaisariani, por isso, se Tsipras tivesse lá ido a 1 de Maio, teria passado desapercebido; tendo escolhido fazê-lo a 26 de Janeiro, como primeiro acto oficial, quis deixar uma mensagem muito clara: a Grécia não se esqueceu do que a Alemanha fez e as contas do passado estão por saldar.

A ida a Kaisariani está indissoluvelmente ligada ao desenterramento da questão das indemnizações de guerra entre a Alemanha e a Grécia, um assunto que os alemães entendem ter ficado saldado em 1960, com o pagamento de 150 milhões de marcos (e definitivamente encerrado com um acordo assinado em 1990 com as quatro principais potências Aliadas, a quem a Alemanha se rendera em 1945), mas que os gregos entendem estar por resolver, elevando-se hoje a 278.700 milhões de euros (para efeitos de comparação, os empréstimos concedidos à Grécia no âmbito do programa de assistência financeira somam 240.000 milhões).

O valor apresentado pelos gregos está apoiado em documentação detalhada (761 volumes) e inclui compensações pelos massacres, pela destruição de edifícios e infra-estruturas (108 mil milhões), pela requisição de matérias-primas e alimentos, por um “empréstimo” (sem juros) de 476 milhões de marcos concedido (ou melhor, extorquido) à Grécia pela Alemanha em 1942 (que valerá agora 54 mil milhões de euros), e pela pilhagem de valores artísticos.

Um ateniense citado em The Third Reich at War, de Richard J. Evans, exprimia o seu espanto e indignação por, tendo vivido 13 anos na Alemanha, antes da guerra, ter construído uma elevada imagem do sentido de honra dos alemães e agora ver os invasores entregues a um frenesim de pilhagem que não deixava escapar cobertores, lençóis, fronhas e maçanetas de porta. Será que os 278.700 milhões de euros pedidos também cobrem estes itens?

Se não há dúvida de que o comportamento alemão foi infame, é paradoxal que a Grécia apresente uma conta tão longa e detalhada à Alemanha e não reivindique um cêntimo a Itália. Afinal de contas, Hitler não tinha planos para a Grécia – no curto prazo, já que no longo prazo Hitler tinha planos até para Madagáscar –, e quem invadiu a Grécia, a 28 de Outubro de 1940, foi a Itália. Não havia nenhum pretexto válido que Itália pudesse invocar para esta agressão, apenas uma vaga pulsão imperialista na zona dos Balcãs, umas descabeladas reivindicações territoriais (algumas ilhas gregas tinham, em tempos remotos, sido possessões venezianas) e alguns ciúmes de Mussolini perante a sucessão de retumbantes vitórias de Hitler.

Itália lançou o ataque a partir da Albânia (que ocupara sem resistência em 1939), mas os gregos não só repeliram o exército italiano – um dos mais ineptos e desmotivados dos que lutaram na II Guerra Mundial – como irromperam pelo território albanês. O que era para ter sido um passeio das forças italianas, acabou com gregos e italianos engalfinhados em intermináveis escaramuças na Albânia, os britânicos a intrometerem-se no assunto e a enviarem aviões para a Grécia, de onde poderiam bombardear as zonas petrolíferas da Roménia (indispensáveis à Alemanha), a que se somou, a 27 de Março de 1941, um golpe de estado em Belgrado que depôs o regente, o príncipe Paulo, que acabara de assinar um pacto com a Alemanha.

Hitler, que estava a ultimar os preparativos para invadir a URSS, precisava de tudo menos de confusões na sua retaguarda, pelo que, agastado com Mussolini (que tomara a iniciativa de invadir a Grécia sem avisar o seu aliado), se viu forçado a pôr termo à instabilidade criada pelo Duce nos Balcãs. Fê-lo com a rapidez e impiedosa eficácia de que já dera provas: a 1 de Junho toda a região estava sob controlo.

Como escreve Mark Mazower em Dark Continent (editado em Portugal como O Continente das Trevas, pelas Edições 70), “a Grécia teria provavelmente, conseguido manter-se neutra se a desastrada invasão italiana não tivesse desencadeado a intervenção britânica e a consequente resposta alemã”. Em vez disso, acabou destroçada e dividida em três zonas de ocupação: alemã, italiana e búlgara.

A vida da Grécia sob a ocupação foi dura: no Inverno de 1941-42 morreram cerca de 40.000 pessoas de fome, a maioria em Atenas, em resultado da combinação da destruição das redes de comunicações, das pilhagens e requisições de alimentos feitas pelos alemães, da elevada taxa de desemprego, da inflação galopante, da desarticulação geral da economia e do açambarcamento pelos gregos.

Como escreve Mark Mazower, em Hitler’s Empire (editado em Portugal como O Império de Hitler, pelas Edições 70), “ninguém tinha desejado ou planeado a fome, mas os alemães também não se deram ao trabalho de fazer algo para a aliviar. Continuaram a requisitar alimentos e não providenciaram assistência”. A fome também chegou à Grécia sob controlo italiano, mas quando o número de vítimas começou a crescer os italianos enviaram víveres – porém, o caos administrativo instaurado no sector italiano levou a que ocorressem episódios trágicos nalgumas ilhas gregas, nomeadamente em Syros, onde terão morrido de fome 8000 dos seus 17.000 habitantes.

No sector alemão nada foi feito – ou melhor, em Atenas havia oficiais alemães (o relato encontra-se em The Third Reich at War, de Richard J. Evans) que se divertiam a atirar restos de comida, a partir das varandas, aos bandos de miúdos esfomeados na rua e a vê-los lutar por uma côdea. Göring justificou-se assim: “Não podemos preocupar-nos demasiado com os gregos. São vítimas de um infortúnio que também afecta outros povos.”

Recorrendo a estereótipos que ainda continuam a ter aceitação na Europa setentrional, um jornal alemão escreveu: “Será que a população das cidades gregas, que actualmente parece ser constituída apenas por traficantes, agentes do mercado negro, receptadores de bens furtados, ladrões e gente que não quer trabalhar, merece ser mantida viva através dos mantimentos do Eixo? Veremos durante quanto tempo poderão os países do Eixo, na sua árdua luta, continuar a sustentar uma população de milhões de ociosos.”

Toda a Europa sob o jugo alemão passou fome e outras privações, mas o tratamento foi desigual: os alemães foram mais brandos com os povos com que sentiam algumas afinidades, como os dinamarqueses, os holandeses, os belgas, os noruegueses e até os franceses, foram mais brutais e insensíveis com os povos balcânicos e piores ainda com os polacos e soviéticos – de acordo com Mazower, foi na URSS, Jugoslávia e Grécia que a morte pela fome atingiu grandes proporções.

Entretanto, a resistência grega, tirando partido da natureza montanhosa e da má rede de comunicações do país e da tradição de guerrilha contra o jugo otomano, foi mostrando-se particularmente activa, o que explica (não justifica) a ferocidade das represálias, que reduziram a cinzas centenas de aldeias e deixaram um milhão de gregos sem tecto. Mas se é verdade que os alemães executaram 21.000 gregos durante a ocupação, os italianos executaram 9.000 e os búlgaros, 40.000.

No início, o sector italiano da Grécia manteve-se relativamente calmo, embora ao lado, na Jugoslávia, as forças de ocupação italianas estivessem já a aplicar os métodos anti-guerrilha que aplicaram nas campanhas da Líbia e da Etiópia: campos de concentração, fuzilamento de reféns, aldeias arrasadas e política de terra queimada. Como comenta Mazower em Hitler’s Empire, só não recorreram a gás venenoso, uma “deferência” para com os povos de tez mais clara. Quando, no Outono de 1942, a guerrilha grega começou a causar estragos, os italianos rapidamente adoptaram as práticas já aplicadas na Jugoslávia. Não consta, porém, que o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi tenha recebido de Tsipras uma conta de milhares de milhões de euros para pagar.

A Itália pode alegar uma pequena atenuante: quando, em 1943, Mussolini foi deposto e um novo governo negociou um armistício com os Aliados, as tropa alemãs não só assumiram o controlo da zona italiana da Grécia como submeteram as tropas que dias antes eram suas aliadas ao mesmo tratamento que ambos dispensavam aos insurrectos gregos: execuções em massa. Só em Cefalónia foram executados 5300 soldados italianos por “traição” (isto é, por obedecerem ao seu novo governo). Nas ilhas de Corfu e Kos os alemães “limitaram-se” a executar todos os oficiais italianos.

Prudentemente, a Bulgária só fizera entrar as suas tropas na Jugoslávia e na Grécia depois de as tropas alemãs terem feito o trabalho perigoso e sujo, mas reclamou para si uma área de 16.000 km² no norte da Grécia (boa parte da Trácia e da Macedónia). Enquanto alemães e italianos se afirmaram como ocupantes, a Bulgária anexou esta área ao seu território e confrontou a população com esta opção: expulsão ou “bulgarização”.

No final de 1941, 100.000 gregos tinham sido expulsos (muitos foram enviados como trabalhadores-escravos para a Alemanha) e os que ficaram viram-se proibidos de usar a língua grega, foram expropriados de terrenos e casas em favor das dezenas de milhar de colonos búlgaros que se instalaram na região e ficaram sujeitos a um regime de trabalhos forçados. Quando, em Setembro de 1941, os gregos se revoltaram contra estas políticas iníquas, foram selvaticamente esmagados: só na cidade de Drama foram executados 3000 gregos e mais 15.000 morreram nas operações de contra-insurgência em torno da cidade.

Evans (The Third Reich at War) estima que a repressão pelos búlgaros das revoltas gregas de Setembro de 1941 terá causado 45.000 a 60.000 mortos. As condições no território anexado pela Bulgária eram tais que muitos gregos procuraram refúgio no sector alemão. Porém, Alexis Tsipras não se apressou a visitar o memorial às vítimas do levantamento de Drama e Boyko Borissov, primeiro-ministro búlgaro, não foi confrontado pelo governo grego com pedidos de reparações.

Se se quiser levar a contabilidade deste período negro da história dos Balcãs, o próprio governo grego poderia ser confrontado com uma factura incómoda: as relações entre os gregos e os cham, albaneses muçulmanos que viviam em território grego, nunca tinham sido boas e agravaram-se quando vários bandos cham colaboraram entusiasticamente com o Eixo na pilhagem e repressão do povo grego. Tal serviu de pretexto para que, em Setembro de 1944, a guerrilha nacionalista grega (EDES) desencadeasse (nas palavras de oficiais britânicos presentes na região) “uma orgia de vingança”: só em Paramithia os gregos terão morto 600 homens, mulheres e crianças cham. Os que escaparam aos massacres foram expulsos para o território albanês.

Porém, se Edi Rama, o primeiro-ministro albanês, apresentasse hoje aos gregos a conta do que fizeram em Paramithia em 1944, estes poderiam alegar que apenas estavam a fazer justiça pelo que os cham fizeram em Paramithia em 1943: numa acção conjunta com os alemães, os cham tinham executado 200 civis gregos e destruído 19 aldeias. O relatório do coronel Chris Woodhouse, chefe da Missão Militar Aliada na Grécia, concluía assim o relato desta pavorosa série de represálias: “Os cham tiveram o que mereciam, mas os métodos de Zervas [o líder do EDES] foram péssimos […]. O resultado foi uma deslocação de populações, removendo uma minoria indesejada do solo grego. Talvez seja melhor deixar as coisas como estão.”

Mas seria de esperar que os gregos tratassem “estrangeiros” de outra etnia e religião com maior humanidade se eles próprios começaram a envolver-se em ferozes lutas intestinas? As primeiras escaramuças tinham surgido em 1942, ecoando o que já acontecera na guerra de libertação contra os turcos, em 1824-25, mas foi a partir de finais de 1944, no vácuo de poder criado pela retirada alemã, que o conflito se agudizou – houve uma pausa em 1945-46, mas, na prática a Grécia esteve em guerra civil, opondo facções de direita (EDES) e esquerda (ELAS) até 1949.

No início, alguns dos ódios entre facções de guerrilha foram promovidos pelos alemães, que já tinham vindo a aplicar a técnica de dividir para reinar na Jugoslávia. Após um estímulo inicial, mediante a constituição pelos alemães de “batalhões de segurança” e esquadrões de morte, recrutados entre criminosos e arruaceiros e a quem foi dada “carta branca na guerra contra comunistas e bandidos” (Mazower, em Hitler’s Empire), os gregos rapidamente se engalfinharam num conflito sangrento sem necessidade de mais incitamento.

Seja como for, na Europa a questão das reparações da II Guerra Mundial parece ser um assunto estritamente alemão, que não diz respeito às outras potências do Eixo: Itália, Bulgária, Hungria e Roménia. A Itália parece ter sido absolvida de tudo pela rendição em 1943 e sobre os parceiros menores desceu um véu de olvido.

Tome-se o caso da Roménia e bastará recordar a perseguição e extermínio dos judeus da Bessarábia, Bukovina e Transnístria promovida pelo marechal Ion Antonescu, o ditador (conducatore) romeno. Os judeus não foram as únicas vítimas da ferocidade romena: na Transnístria (que pouco tem a ver com a Transnístria de hoje), habitada maioritariamente por ucranianos, a palavra de ordem era “pilhar e romenizar” e Antonescu deu instruções aos seus ministros para “tirar tudo quanto for possível da Transnístria, mas sem deixar registos escritos”.

Mas foi sobre os judeus que a fúria e o desnorte dos romenos se abateu mais implacavelmente: num ano, a combinação de pogroms, execuções em massa e deportações em condições desumanas causou 280.000 a 380.000 vítimas e revestiu-se de tal selvajaria que levou um elemento das SS a comentar que “as execuções sádicas levadas a cabo inadequadamente pelos romenos” deveriam ser implementadas segundo “procedimentos mais planeados”, uma apreciação que está em consonância com a de outro observador alemão: “Os romenos actuam contra os judeus sem a mais vaga ideia de um plano. Ninguém objectaria à eliminação maciça de judeus, não fosse os aspectos técnicos da sua concepção e execução serem tão deficientes.”

Em 1944, quando o Exército Vermelho se aproximava já das fronteiras romenas, relata Mazower (Hitler’s Empire) que “o Ministro da Defesa romeno sugeriu que se limpassem os locais dos massacres de forma a encobrir as atrocidades”, ao que o marechal Antonescu, que emitira ordens directas e explícitas para os massacres, retorquiu: “Do que está você a falar?”. A amnésia que atacou Antonescu parece ter-se estendido, entretanto, a quase todo o mundo.

Mas o país que se evade mais airosamente de responsabilidades na II Guerra Mundial é a Áustria: o facto de ter sido “anexada” pela Alemanha em 1938 tornou-a quase completamente invisível. A Áustria chegou mesmo a apresentar-se como a primeira vítima da Alemanha nazi, quando na verdade a sociedade austríaca acolheu genericamente de bom grado a “união” com a Alemanha (um plebiscito – realizado em condições duvidosas, é certo – deu 99.7% de aprovação à anexação) e forneceu às altas esferas nazis várias figurões e criminosos de guerra notórios, como Otto Skorzeny, Odilo Globocnik ou Adolf Eichmann.

Não seria descabido remeter para o governo austríaco parte da factura de 278.000 milhões de euros exigida à Alemanha: atendendo à proporção das suas populações, caberia aos austríacos uma quota de 1/10 da soma total, acrescida de uma sobretaxa por o responsável último da guerra – Hitler – ser austríaco.

Também o melhor aliado que a Alemanha teve entre 1939 e 1941 foi automaticamente ilibado em Junho de 1941, quando Hitler invadiu o seu território. No entanto, até essa data, a URSS tivera um comportamento tão reprovável aos olhos da comunidade internacional como a Alemanha: invasão da Polónia (Setembro de 1939) e da Finlândia (Novembro de 1939), fornecimento de alimentos e matérias-primas (incluindo petróleo) indispensáveis ao esforço de guerra nazi, cedência (discreta) de uma base de apoio a submarinos alemães no Mar de Barents. Em Junho e Julho de 1940, ao ver que Hitler levava de vencida a França e a Grã-Bretanha, a URSS sentiu-se à vontade para ocupar a Lituânia, Letónia e Estónia, e roubar um substancial naco da Roménia (Bukovina e Bessarábia) – afinal de contas já tinha sido expulsa da Sociedade das Nações pela invasão da Finlândia, que mais tinha a perder?

A França e a Grã-Bretanha, que tinham entrado na guerra em resposta à agressão alemã à Polónia, nunca se sentiram tentadas a declarar guerra à URSS por ter feito a mesma coisa. Pior do que isso, como assinala Laurence Rees em World War II: Behind Closed Doors (editado em Portugal como A II Guerra Mundial: À Porta Fechada, pela Bertrand), “não só o governo britânico sabia das atrocidades que os soviéticos estavam a perpetrar na Polónia Oriental, como também estava ansioso por se calar acerca delas – embora, como é evidente, condenasse abertamente os nazis na Polónia Ocidental por cometerem crimes semelhantes”. O desencadear da Operação Barbarossa limpou o pesado cadastro da URSS e fê-la passar, automaticamente, de carrasco a vítima

E que juízo pode fazer-se dos países ditos neutrais? Quantos milhares de vidas teriam sido poupadas se Portugal tivesse interrompido o fornecimento à Alemanha de tungsténio, um metal crucial para o fabrico de armamento? E em que posição fica a Suécia, que foi um dos principais fornecedores de minério de ferro indispensável ao esforço de guerra germânico e que, em 1941, permitiu o trânsito por território sueco de tropas alemãs entre a Noruega e a Finlândia, onde se juntaram às unidades que invadiram a URSS? A Suíça, que aceitou converter em francos suíços o ouro pilhado pelos alemães aos bancos centrais dos países ocupados, não deveria ser chamada a prestar contas?

Não só estes “delitos menores” não foram punidos como até a Alemanha conseguiu sair do imbróglio das reparações de guerra com poucas despesas – quando se considera a devastação e sofrimento que causou – e limitou-se a fazer alguns pagamentos a Israel, Polónia, Jugoslávia e URSS (nestes dois últimos casos sob a forma da entrega de equipamento fabril), além do já mencionado pagamento à Grécia de 150 milhões de marcos, em 1960.

É instrutivo confrontar este desfecho com o da I Guerra Mundial, em que os Aliados impuseram pesadíssimas reparações à Alemanha – a Áustria, a Hungria e a Turquia escaparam-se porque estavam financeiramente arruinadas. As quantias exigidas à Alemanha – primeiro de 269 mil milhões de marcos, ajustados em 1921 para 132 mil milhões – eram colossais. Na prática, acabaram por ser acordados montantes mais realistas e mesmo estes pagamentos sofreram adiamentos sucessivos, pois a economia alemã dos anos 20 e 30 passou por várias crises sérias.

Do lado aliado nem todos concordaram com estas reparações – e um deles foi o economista John Maynard Keynes, que fora delegado do Tesouro Britânico na conferência que resultou no Tratado de Versailles e que considerava as reparações impostas à Alemanha excessivamente pesadas, tese que expôs no livro The Economic Consequences of Peace, de 1919, em que lamentava que os ideais do presidente americano Woodrow Wilson tivessem sido suplantados pela visão vingativa e mesquinha do primeiro-ministro francês Georges Clemenceau, secundado pelo primeiro-ministro britânico David Lloyd George.

Ainda hoje os economistas discutem se as reparações impostas à Alemanha seriam excessivas e se o seu pagamento integral conduziria inevitavelmente ao colapso da economia alemã. Mas, o que é indesmentível é que o povo alemão as sentia como excessivas e injustas e isso contribuiu decisivamente para que dirigissem as suas simpatias e o seu voto para um líder que fez campanha com o slogan “Não pagamos!”. Chamava-se Adolf Hitler e, efectivamente, cancelou os pagamentos das reparações assim que se tornou chanceler. Os pagamentos só seriam reatados muito mais tarde – o derradeiro foi realizado a 3 de Outubro de 2010, 92 anos após o término das hostilidades.

Independentemente das discussões em torno dos montantes das reparações, a verdade é que a I Guerra Mundial foi mal concluída e deixou latentes as tensões que haveriam de estoirar em 1939. Ao reconhecer que a lógica vingativa que presidira ao Tratado de Versailles tinha sido contraproducente, os vencedores da II Guerra Mundial foram mais benévolos para com os derrotados e não se empenharam em extrair da Alemanha (e do Japão) as compensações pelos estragos e sofrimento causados – e isto apesar de a culpa da Alemanha na II Guerra ser bem mais pesada e inequívoca do que na I Guerra.

A II Guerra Mundial foi um momento tão monstruoso, infame e vergonhoso da história da humanidade (e em particular da história da Alemanha), o novelo de crimes, represálias e contra-represálias é tão emaranhado, que qualquer tentativa de ajuste de contas redundará necessariamente em fracasso e despertará um enxame maligno de ódios e recriminações.

Os alemães tinham-se comportado como bestas, mas a Europa iria ter de continuar a viver com eles. Assim, o caminho tomado pelos vencedores seguiu, em linhas gerais, a posição do chefe da Missão Militar Aliada na Grécia a propósito do antagonismo greco-albanês: “Talvez seja melhor deixar as coisas como estão.” A única forma de os europeus continuarem a viver juntos em paz passa não por esquecer o passado, mas por aceitar não guardar rancores e ressabiamentos sobre o momento mais negro e desvairado da sua história.

Tsipras poderia ter escolhido como gesto simbólico de início de mandato algo que desse a entender que estava decidido a acabar com a natureza clientelar do Estado grego, a combater a economia “informal” ou a montar uma máquina fiscal equitativa e eficaz – um país que tem um PIB per capita da ordem dos 19.000-20.000 euros e atravessa uma “grave crise humanitária” tem, necessariamente, graves assimetrias na distribuição dos rendimentos.

Em vez disso, escolheu visitar Kaisariani, o que representa uma quebra de um entendimento tácito de “deixar as coisas como estão” entre as nações europeias e, ao mesmo tempo, sugere que a crise grega resulta sobretudo de causas exteriores, do “dedo estrangeiro”. Mark Mazower, citado num artigo recente no jornal Ekathimerini, aponta à Grécia uma tendência para atribuir os seus infortúnios à escassa liberdade de manobra e à sujeição a países poderosos. Agora os alemães, antes os turcos, antes ainda os romanos – desde 146 a.C., quando as legiões romanas derrotaram as falanges gregas em Corinto, que há estrangeiros a impor à Grécia o seu diktat e a impedi-la de ser livre, feliz e próspera.

Tsipras tem o pleno direito de entender injustas e inadequadas as condições impostas, no âmbito do resgate financeiro, pela troika e pela Alemanha e de lutar para as tornar mais favoráveis com todas as suas energias, mas escusava de voltar a abrir a caixa de horrores que foi a II Guerra Mundial. Parafraseando uma personagem de Ulisses, de James Joyce, a história é um pesadelo de que a Europa tem estado a tentar despertar – mas após 70 anos de relativa tranquilidade, há quem queira puxá-la novamente para dentro do pesadelo.

Alemanha e o Acordo de Londres 1953: Que Lições?

Fonte: Chipre News

Há somente 60 anos, em 27 de Fevereiro de 1953, celebrou-se em Londres, com representantes de 26 países, um acordo que concedeu o perdão de metade da dívida da Alemanha pós-guerra. Estados Unidos, Reino Unido, França, Holanda e Suíça contavam-se entre os países com créditos mais elevados. Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estavam a Espanha, Grécia e Irlanda. A dívida total foi avaliada em 32 mil milhões de marcos representando cerca de 150% das exportações da Alemanha em 1950.

A Alemanha saiu da Segunda Guerra Mundial ainda com dívidas por pagar relativas às indemnizações de guerra impostas ao país pela conferência de paz de Versalhes em 1919.
A dívida da Alemanha (*) anterior à II Grande Guerra, calculada em cerca de 13,5 mil milhões de marcos, era enorme deixando-a numa situação de completa incapacidade para pagar.
Muitas vozes, incluindo John Keynes, argumentaram que essas dívidas impagáveis e as políticas económicas seguidas conduziram à ascensão do nazismo e à Segunda Guerra Mundial.
Essa dívida incluía os empréstimos contraídos pela República de Weimar com o propósito de cumprir os acordos impostos pelo Tratado de Versalhes de 1919. Esses acordos tinham sido objeto de dois reescalonamentos acabando mais tarde por sofrer um perdão parcial. Foi acordado o reescalonamento da dívida por um período de 30 anos beneficiando parte da dívida de um período ainda mais alongado.
O pagamento foi calendarizado para o período entre 1953 e 1983 com um período de carência para os primeiros cinco anos durante o qual apenas se pagariam juros. Na antevéspera da reunificação alemã (Outubro de 1990) o governo emitiu as últimas obrigações para pagar a dívida contraída na década de 1920.

Ao contrário da política atualmente seguida pela Troika, o Acordo de Londres de 1953 previa condições a cumprir pelos países credores que se obrigavam a garantir a capacidade de recuperação económica da Alemanha.

O acordo procurou assegurar o crescimento económico da Alemanha e a sua capacidade real para cumprir o pagamento da dívida. Para alcançar esse objetivo o acordo definiu três medidas fundamentais: Perdão de 50% da dívida, reescalonamento do prazo da divida e condicionamento do pagamento à capacidade de cumprimento do país.

Ficou ainda assegurada a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos em caso de dificuldade. O montante afeto ao serviço da dívida nunca poderia ultrapassar 5% do valor das exportações alemãs e as taxas de juro foram estudadas para viabilizarem o bom funcionamento da economia situando-se entre 0 e 5 %. Os credores concordaram que seria inaceitável reduzir o consumo interno para pagamento da dívida, exatamente o oposto das políticas que hoje são impostas pela Troika.

É também interessante notar que as recomendações estabelecidas no acordo estipulavam a necessidade de dispensar um tratamento humano ao devedor.

Este acordo garantiu à Alemanha imunidade futura para eventuais novos pedidos de indemnização. O facto de não ter havido durante as décadas seguintes qualquer tipo de discussão sobre a dívida alemã prova que o Acordo de Londres foi muito eficiente e equilibrado.

As medidas adotadas foram fundamentais para a reconstrução da Europa devastada pela guerra. O espírito do Acordo de Londres contrasta profundamente com o sofrimento que atualmente está a ser infligido aos cidadãos europeus vítimas da crise financeira que assola a Europa.

O Acordo de Londres previa uma condição muito equilibrada ao obrigar a Alemanha a apenas efetuar o pagamento da dívida através do superavit da balança comercial. Os credores autorizavam ainda a Alemanha o direito de impor taxas unilaterais às importações que prejudicassem a sua indústria.
O que vemos hoje? Um desprezo absoluto pelos países devedores independentemente do défice crónico das suas balanças comerciais. A degradação económica a que assistimos ameaça seriamente a estrutura social dos países em crise.

Lamentavelmente os signatários não consideraram a necessidade de incluir no sistema de ensino alemão o Acordo de Londres como ferramenta de estudo para a juventude do pós-guerra. Às crianças alemãs, principalmente às que nasceram já depois de terminada a Segunda Guerra Mundial, não lhes foi facultada informação detalhada sobre este importantíssimo acordo e sobretudo sobre as diversas matérias que então foram analisadas, sem as quais a Alemanha muito provavelmente não seria hoje a maior potência económica da Europa.
Este lapso impediu que as escolas alemãs desempenhassem um papel de maior relevância na formação das novas gerações no que respeita à delicada questão do relacionamento da nação alemã com os restantes países e na compreensão plena da atitude elevada que então os vencedores manifestaram para com os vencidos logrando ultrapassar com sucesso ódios profundos e vontades de revanche perfeitamente compreensíveis à luz das consequências arrasadoras provocadas pelos alemães às outras nações.
Esta lacuna não foi infelizmente colmatada pela generalidade dos órgãos de informação mais preocupados em sublinhar os milagres da recuperação económica alemã do que contribuir para a formação saudável de uma população anteriormente submetida a uma doutrinação política extremista, racista e elitista.

Talvez hoje os atuais dirigentes da Alemanha beneficiada pela compreensão e apoio dos vencedores tivessem outra atitude e manifestassem mais preocupação pela obtenção de negociações mais equilibradas e adequadas aos países em dificuldades. De realçar que parte dessas dificuldades são da responsabilidade dos próprios países desenvolvidos.

O Acordo de Londres criou as condições de sustentação que permitiram que um país completamente destruído e endividado pudesse evoluir sem que o seu endividamento prejudicasse o desenvolvimento económico.

Em 1953 a Alemanha tinha ainda dívidas dos empréstimos concedidos imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial para a reconstrução. EUA, Reino Unido, França Grécia, Espanha, Paquistão e Egito eram credores da Alemanha. A dívida alemã representava um quarto da riqueza nacional, bastante inferior à atual dívida da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha.
Houve no entanto uma preocupação séria para evitar que o pagamento da dívida pudesse prejudicar a reconstrução do país. Por esse motivo os credores reuniram-se em Londres e acordaram ajudar um país que pretendia recuperar do estado de devastação total em que mergulhara por culpa própria.

Esse acordo também mostrou que a dívida não pode ser vista como uma responsabilidade exclusiva do devedor. Países como a Grécia acordaram de forma voluntária ajudar a criar uma Europa estável e próspera apesar dos crimes de guerra que os ocupantes alemães lhes tinham infligido apenas alguns anos antes.

O perdão da dívida alemã, inclusive do setor privado, foi alcançado com alguma facilidade antecipando uma crise real de consequências nefastas para a Alemanha.

Talvez a característica mais inovadora do Acordo de Londres tenha sido a cláusula que estipulava que a Alemanha Ocidental só pagaria dívidas recorrendo ao seu superavit comercial limitando os reembolsos a 3% das receitas de exportação anuais. Os países credores obrigavam-se a comprar bens à Alemanha Ocidental para verem liquidados os seus créditos.
A Alemanha Ocidental só pagava a partir de ganhos reais sem recorrer a novos empréstimos. Os credores da Alemanha tinham interesse e até beneficiavam do crescimento da economia do país.

Após o Acordo de Londres a Alemanha Ocidental conheceu um “milagre económico” com o problema da dívida solucionado e anos de crescimento económico.

Hoje constatamos que a solução para os países endividados é totalmente diversa. A prática tem sido a de forçar os governos a implementar medidas de austeridade e a liberalizar o mercado para se tornarem supostamente “mais competitivos”. Como resultado disso a pobreza e a desigualdade aumentaram na Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. Este fenómeno já se tinha verificado em África nos anos 80 e 90 com o número de pessoas que vivem em extrema pobreza a crescer em 125 milhões enquanto as economias encolhiam. Atualmente a economia da Grécia encolheu mais de 20% com um em cada dois jovens desempregados. Em ambos os casos o endividamento cresceu.

A prioridade nos dias de hoje de um governo endividado é o pagamento das suas dívidas qualquer que seja o montante do orçamento que os reembolsos consomem. Em contraste com o limite de 3% sobre os pagamento da dívida alemã, o FMI e o Banco Mundial consideram atualmente sustentável pagamentos de dívidas de até 25% das receitas de exportação dos países endividados. O pagamento da dívida externa grega representa cerca de 30% das exportações.

A “estratégia” na Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e agora em Chipre consiste em colocar o fardo do ajustamento apenas sobre o país devedor para tornar a sua economia mais competitiva através do desemprego em massa e cortes salariais. Mas sem credores como a Alemanha dispostos a aumentar a importação de bens desses países isso não vai acontecer. Apenas será aprofundada a dor social nos países devedores.

O acordo da dívida alemã foi um elemento essencial para a recuperação da devastação da Segunda Guerra Mundial. Na Europa de hoje a dívida está a destruir o tecido social. Temos de considerar erradas, para não as classificar como criminosas, as políticas atuais dos líderes europeus.

Há todavia o exemplo positivo da Alemanha de há 60 anos.

Um dos ensinamentos mais relevantes do Acordo de Londres de 1953 está na consciencialização da necessidade de se evitarem os erros cometidos após a I Guerra Mundial que provocaram nos países vencidos uma grande desestabilização política e social.
O governo do Chanceler Konrad Adenauer (1949 a 1963) demonstrou uma grande habilidade política ao tirar partido da contribuição da Alemanha como Estado tampão durante o período de Guerra Fria.

A União Europeia, e em especial a Alemanha, deveriam refletir sobre as medidas que preconizam comparando-as com as estipuladas no Acordo de Londres. A opinião pública deve lutar para demonstrar que o cancelamento da dívida pública, ainda que parcial, pode ser viável e salutar se houver vontade política e forem adotadas medidas inteligentes que promovam o desenvolvimento económico.

A Europa precisa de refletir e de tomar medidas rapidamente sob pena de se afundar e de perder definitivamente o seu estatuto de continente privilegiado. Parece aconselhável, por exemplo, ter em conta as críticas do economista norte-americano Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia, que considera errada a estratégia da União Europeia de combate à crise bem como os cortes acentuados na despesa pública.

Esta crise é certamente o primeiro resultado profundo da submissão dos interesses da Europa no seio da Organização Mundial do Comércio (OMC) designadamente a abertura irracional dos seus mercados aos países asiáticos, com a China à cabeça, e com a consequente destruição da sua estrutura industrial e correspondente desemprego em larga escala. A China não cumpre os critérios da economia de mercado definidos pela OMC pelo que o estatuto de economia de mercado só lhe deveria ser concedido após cumprir todos os critérios. Só assim se pode assegurar a concorrência leal e de equilíbrio saudável.

(*) A reunião sobre as dívidas anteriores à II Grande Guerra teve lugar em Londres de 28 de Fevereiro a 28 de Agosto de 1952 com a presença de 22 países credores, do Banco Internacional de Pagamentos (BPI) e de representantes de credores privados.

How Ireland, Greece and Spain forgave Germany’s debts

Bankruptcy of states – that has long been seen as a faraway problem of the so-called Developing World (the Global South). Today it is not far away at all but directly in front of our own doors. An economic emergency as a consequence of over-indebtedness threatens the very existence of the European monetary union. On-going social and political devastation in the crisis-ridden countries threatens the social fabrics of those countries. Germany, however, seems to stand apart as a relatively successful and flourishing economy. However, this has not always been the case.
Not many people know that generous debt relief was availed of by Germany at the beginning of its ‘economic miracle’. Among modern sovereign debt restructurings, the ‘London Debt Accord’ for Germany, which we celebrate the 60th anniversary of on the 27th of February, is an early and little known example – which is all the more surprising because it was so successful in restoring (West) Germany’s debt sustainability. By the end of the negotiations, half of all debts of DM 30 million had been cancelled and the remainder had been rescheduled in such an intelligent way that Germany never faced a debt problem again.
In their history classes German children usually do not learn about the Accord and in the media there is also little consideration given to it. However, today, it would be wise to remember how a looming state bankruptcy was prevented through timely, fast, comprehensive and fair negotiations.
The contrast between the historical treatment of Germany with the current treatment of Greece could not be more obvious. Germany received far-reaching debt relief and as a result its economy grew quickly and sustainably. Greece, in contrast, is being forced to ‘consolidate’ itself into a painful and destructive recession that shakes the society to its very foundations. One of those generous (to Germany) creditors in 1953 was, by the way, Greece, irrespective of the war crimes that the German occupation force had committed just a few years before in Greece.
Few sovereign debt restructurings as that of 1953 have so clearly marked the transition from a state of critical indebtedness to a situation where debt is no longer an obstacle to economic and social development. The agreement is still today one of the best historical examples of how reasonable and sustainable a debt work-out can be – if the political will is there.
‘London 53’ is worth re-examining today as an example and source of guidance for current discussions about debt relief, both for countries of the Global South and in the context of the present state insolvency crisis within the Eurozone. Let us remember this vital piece of largely forgotten history! And let us commit again to taking responsibility for treating over-indebted countries in a timely and fair manner.
Kristina Rehbein and Jürgen Kaiser, erlassjahr.de – Entwicklung braucht Entschuldung e.V. (Germany)
Isabel Castro, Iniciativa de Auditoria Cidadã à Divida Pública – IAC (Portugal)
Eric LeCompte, Jubilee USA Network (USA)
Iolanda Fresnillo, Plataforma Auditoria Ciudadana de la Deuda – PACD (Spain)
Bodo Ellmers, European Network on Debt and Development (Belgium)
Nessa Ní Chasaide, Debt and Development Coalition and Andy Storey, Debt Justice Action’s Anglo: Not Our Debt (Ireland)
Nick Dearden, Jubilee Debt Campaign (United Kingdom)
 
 
1. What is the London Debt Accord?
 
February 27th 1953 is the day on which the ‘London Debt Accord’ was signed, an extraordinary agreement that cancelled much of Germany’s pre-war and war debts. The exceptional character of the agreement is that it was signed by countries that had been at war only a few years previously: on the one hand, the highly indebted new German Federal Republic (the successor to Hitler’s Germany), and on the other, Germany’s creditors, the western Allies, led by England, France and the USA.
2. How Much of Germany’s Debt was cancelled?
Germany had been destroyed by war, and was incapable of paying its external public debts in the post-war years. Despite some previously agreed reduction in its post-war debt, its pre-war debts remained enormous and unpayable. About 50% of Germany’s debt was cancelled, worth 30 billion DMs, or 150% of Germany’s exports in 1950. Of Germany’s remaining debt stock, further relief was granted through a reduction in interest on its different facets.[1] The London Conference agreed a comprehensive solution on how to deal with Germany’s outstanding debts relating to two constituent parts:
  • Loans that Germany had taken out during the time of the Weimar Republic to meet the reparation arrangements of the 1919 Treaty of Versailles, which had twice been rescheduled and later partially cancelled.[2] In addition, there were the debts of other public institutions and German private debtors to the tune of 5.8 billion DM, so that all pre-war debts of 13.5 billion DM were established and discussed.
  • Loans that the federal government had received from the western powers, in particular the USA, after the Second World War to finance the reconstruction.[3]
Who was involved?
The conference on pre-war debts met from 28th February to 28th August 1952 in London. 22 representatives from creditor countries took part, the Bank for International Settlements (BIS) and representatives of private creditors. The driving force behind the negotiations was the USA. During the negotiations (between 1951 and 1953) German private and public debt owed to public and private entities from the following countries was dealt with who are signatories to the Agreement:
Belgium, Ceylon (today: Sri Lanka), Denmark, France, Greece, Iran, Italy, Yugoslavia, Canada, Liechtenstein, Luxemburg, Norway, Pakistan, Sweden, Switzerland, Spain, South Africa, Britain and the USA. Until 1963 the following states and territories acceded to the accord:  Aden, Egypt, Argentina, Australia, Belgian Congo (today DRC), British Channel Islands, Chile, Finland, Falkland Islands, Gibraltar, Israel, Cambodia, Cameroon, Malta, Morocco, New Guinea and Nauru, New Zealand, Netherlands, North Rhodesia and Njassaland, Austria, Peru, Syria and Thailand.
3. What are the lessons for today’s debt crisis in Europe and the wider world?
Negotiated settlements to debt crises are possible
  • The London Accord demonstrates that it is possible for multi-lateral stakeholders to negotiate comprehensive debt cancellation agreements even in highly politically sensitive contexts. The implementation of the agreements within the Accord was highly cooperative. Despite 6 different arbitration fora being established to deal with conflicts arising as a result of the agreements within the Accord, these dispute mechanisms were rarely needed. Germany was also granted the option to call for “consultations” in the event it faced unforeseen difficulties in mobilising its debt service. However, no German request for consultations is on record.
  • The “guidelines for the recommendations” laid out for the Accord acknowledge the need for humane treatment of the borrower. It states the agreement should
(i)        take into account the general economic situation of the Federal republic and the effects of the limitations on its territorial jurisdiction; it should neither dislocate the German economy through undesirable effects on the internal financial situation, nor unduly drain existing or potential German foreign exchange resources (…)
(ii)       provide for an orderly overall settlement and assure fair and equitable treatment of all the interests affected.”
  • The breathtaking self- confidence applied by the German delegation is notable through their achievement of gaining a significant debt write down, and indeed, using the agreement as an instrument to ward off possible future reparation demands. The German negotiator Hermann Josef Abs reported in 1959:
“There was only one point on which it proved impossible to reach an agreement with the creditors and to embody it in the final conference report – and that is the question of the political preconditions under which we could implement the debt agreement, namely the problem of reparations. (…) But the German delegation had declared – very clearly and in all seriousness –  in the most important final session, that Germany would not be in a position to implement the debt agreement, if demands were still to be made to it under the heading of  ‘reparations’.”
After 1953, Germany made no reparation payments of the kind that were agreed in 1919.

The Agreement happened in such a definite manner, there was practically no more discussion, either internally or externally, on the subject of Germany’s national debt for many decades afterward.

 
The large scale of debts and types of debts considered
  • One of the unique features of the London Accord is that it did not only deal with the debt of the German state and its various predecessors, it also included all external obligations of the German economy, i.e. those of individuals and enterprises. In the interests of an arrangement that would be unified and equally binding on all debtors and creditors, a principle of equal treatment for all debtors and creditors was agreed. All claimants had to accept equivalent cuts in interest and repayment demands. All non-public debtors benefited from the same relief, which the federal republic’s creditors had granted it in the interests of maintaining its capacity for economic development.[4]
  • Thanks to the various safeguards in the agreement and the generous level of debt relief, Germany had very low public and external debt indicators until the onset of the recession in the 1970s. Only from the 1980s onward, then due to the costs of the reunification and finally to the global financial crisis in 2008, Germany’s debt/GNI indicator rose to the 80% range, where it still is today.[5]
  • The deal made a significant contribution to the German boom of the fifties and sixties and to a speedy reconstruction of the devastated country.
Debt resolution can be achieved if the political will is present:
The agreement and its generous terms demonstrate:
  • The strong commitment of the Western Allies not to repeat the mistake committed after WW I, namely to destabilize a defeated enemy politically and socially by imposing an un-payable debt burden.
  • The ability of the then Adenauer government to capitalize on Germany’s unique position as a cold war front state. Without this latter point, the ultimate relief might have been somewhat less generous, had it not been considered to be a contribution towards the Cold War ‘effort’.
  • While the leading role of the United States was clearly visible, many subscribers to the accord later became members of the ‘Non-aligned Movement’, or were neutral from the outset – such as Switzerland.
[1] 2.5 billion DM stayed interest free, 5.5 billion DM were carried a rate of 2.5% and the remaining 6.3 billion DM an average rate of 4.5 to 5%. Compound interest was not charged for the long period during which the debt had not been serviced.
[2] According to the agreement reached in London, these amounted to 7.7 billion DM.
[3] These amounted to about 16.2 billion DM.
[4] The repayment plan agreed in London initially allowed for a grace period of five years between 1953 and 1957, in which annual interest of 567.2 million DM had to be paid. From 1958, fixed repayment and interest rates of 765 million DM were agreed.
[5] Payments expired in the 1980s. Some additional payments fell due, due to German reunification in 1990, which Germany had waived in London, because it did not “exercise full control over its territory”. When it did so, from 1990 onwards, it resumed payments and the last tranche of € 56m was paid to bondholders on Oct. 3rd 2010