Uma factura detalhada para Angela Merkel

Recebido via Facebook

Ao insistir ser indemnizada pela Alemanha pelo que sofreu na II Guerra Mundial, a Grécia quebra um pacto tácito que esteve na base de 70 anos de paz na Europa.

Foi amplamente publicitado que o primeiro acto oficial de Alexis Tsipras, a 26 de Janeiro deste ano, imediatamente depois de ter tomado posse como primeiro-ministro da Grécia, foi depositar rosas vermelhas em Kaisariani, um antiga carreira de tiro nos subúrbios de Atenas onde, a 1 de Maio de 1944, 200 comunistas gregos foram fuzilados pelas tropas de ocupação alemãs, como represália pela morte do general alemão Franz Krech numa emboscada montada por guerrilheiros do ELAS, a facção de esquerda da resistência grega.

As vítimas do fuzilamento não tinham sido capturadas pelos alemães, eram prisioneiros políticos do regime do general Metaxas, que, após a invasão da Grécia, em 1941, tinham passado para custódia alemã. A represália pela morte de Krech incluiu também a execução de todo e qualquer homem grego apanhado fora das respectivas aldeias na região em que o general fora emboscado.

Não se tratou de um caso isolado: os alemães sempre foram implacáveis na resposta às acções da guerrilha grega. Mas a partir de 1943, para cobrir o vazio criado pela rendição italiana, começaram a surgir na Grécia unidades vindas da Frente Leste, onde tinham combatido o Exército Vermelho e a guerrilha e que não hesitavam em recorrer a métodos de brutalidade extrema, uma vez que a ideologia nazi considerava russos e ucranianos como seres inferiores. Em consequência, a ferocidade da repressão alemã contra os gregos intensificou-se.

Embora a ocupação nazi da Grécia tenha sido tragicamente assinalada por muitos outros massacres, alguns deles com mais vítimas do que o de Kaisariani, este tornou-se, sobretudo para a esquerda grega, num símbolo dos agravos entre gregos e alemães e o memorial lá construído até foi alvo de uma visita de um presidente alemão, em 1987. Muitos estadistas gregos já foram depor flores em Kaisariani, por isso, se Tsipras tivesse lá ido a 1 de Maio, teria passado desapercebido; tendo escolhido fazê-lo a 26 de Janeiro, como primeiro acto oficial, quis deixar uma mensagem muito clara: a Grécia não se esqueceu do que a Alemanha fez e as contas do passado estão por saldar.

A ida a Kaisariani está indissoluvelmente ligada ao desenterramento da questão das indemnizações de guerra entre a Alemanha e a Grécia, um assunto que os alemães entendem ter ficado saldado em 1960, com o pagamento de 150 milhões de marcos (e definitivamente encerrado com um acordo assinado em 1990 com as quatro principais potências Aliadas, a quem a Alemanha se rendera em 1945), mas que os gregos entendem estar por resolver, elevando-se hoje a 278.700 milhões de euros (para efeitos de comparação, os empréstimos concedidos à Grécia no âmbito do programa de assistência financeira somam 240.000 milhões).

O valor apresentado pelos gregos está apoiado em documentação detalhada (761 volumes) e inclui compensações pelos massacres, pela destruição de edifícios e infra-estruturas (108 mil milhões), pela requisição de matérias-primas e alimentos, por um “empréstimo” (sem juros) de 476 milhões de marcos concedido (ou melhor, extorquido) à Grécia pela Alemanha em 1942 (que valerá agora 54 mil milhões de euros), e pela pilhagem de valores artísticos.

Um ateniense citado em The Third Reich at War, de Richard J. Evans, exprimia o seu espanto e indignação por, tendo vivido 13 anos na Alemanha, antes da guerra, ter construído uma elevada imagem do sentido de honra dos alemães e agora ver os invasores entregues a um frenesim de pilhagem que não deixava escapar cobertores, lençóis, fronhas e maçanetas de porta. Será que os 278.700 milhões de euros pedidos também cobrem estes itens?

Se não há dúvida de que o comportamento alemão foi infame, é paradoxal que a Grécia apresente uma conta tão longa e detalhada à Alemanha e não reivindique um cêntimo a Itália. Afinal de contas, Hitler não tinha planos para a Grécia – no curto prazo, já que no longo prazo Hitler tinha planos até para Madagáscar –, e quem invadiu a Grécia, a 28 de Outubro de 1940, foi a Itália. Não havia nenhum pretexto válido que Itália pudesse invocar para esta agressão, apenas uma vaga pulsão imperialista na zona dos Balcãs, umas descabeladas reivindicações territoriais (algumas ilhas gregas tinham, em tempos remotos, sido possessões venezianas) e alguns ciúmes de Mussolini perante a sucessão de retumbantes vitórias de Hitler.

Itália lançou o ataque a partir da Albânia (que ocupara sem resistência em 1939), mas os gregos não só repeliram o exército italiano – um dos mais ineptos e desmotivados dos que lutaram na II Guerra Mundial – como irromperam pelo território albanês. O que era para ter sido um passeio das forças italianas, acabou com gregos e italianos engalfinhados em intermináveis escaramuças na Albânia, os britânicos a intrometerem-se no assunto e a enviarem aviões para a Grécia, de onde poderiam bombardear as zonas petrolíferas da Roménia (indispensáveis à Alemanha), a que se somou, a 27 de Março de 1941, um golpe de estado em Belgrado que depôs o regente, o príncipe Paulo, que acabara de assinar um pacto com a Alemanha.

Hitler, que estava a ultimar os preparativos para invadir a URSS, precisava de tudo menos de confusões na sua retaguarda, pelo que, agastado com Mussolini (que tomara a iniciativa de invadir a Grécia sem avisar o seu aliado), se viu forçado a pôr termo à instabilidade criada pelo Duce nos Balcãs. Fê-lo com a rapidez e impiedosa eficácia de que já dera provas: a 1 de Junho toda a região estava sob controlo.

Como escreve Mark Mazower em Dark Continent (editado em Portugal como O Continente das Trevas, pelas Edições 70), “a Grécia teria provavelmente, conseguido manter-se neutra se a desastrada invasão italiana não tivesse desencadeado a intervenção britânica e a consequente resposta alemã”. Em vez disso, acabou destroçada e dividida em três zonas de ocupação: alemã, italiana e búlgara.

A vida da Grécia sob a ocupação foi dura: no Inverno de 1941-42 morreram cerca de 40.000 pessoas de fome, a maioria em Atenas, em resultado da combinação da destruição das redes de comunicações, das pilhagens e requisições de alimentos feitas pelos alemães, da elevada taxa de desemprego, da inflação galopante, da desarticulação geral da economia e do açambarcamento pelos gregos.

Como escreve Mark Mazower, em Hitler’s Empire (editado em Portugal como O Império de Hitler, pelas Edições 70), “ninguém tinha desejado ou planeado a fome, mas os alemães também não se deram ao trabalho de fazer algo para a aliviar. Continuaram a requisitar alimentos e não providenciaram assistência”. A fome também chegou à Grécia sob controlo italiano, mas quando o número de vítimas começou a crescer os italianos enviaram víveres – porém, o caos administrativo instaurado no sector italiano levou a que ocorressem episódios trágicos nalgumas ilhas gregas, nomeadamente em Syros, onde terão morrido de fome 8000 dos seus 17.000 habitantes.

No sector alemão nada foi feito – ou melhor, em Atenas havia oficiais alemães (o relato encontra-se em The Third Reich at War, de Richard J. Evans) que se divertiam a atirar restos de comida, a partir das varandas, aos bandos de miúdos esfomeados na rua e a vê-los lutar por uma côdea. Göring justificou-se assim: “Não podemos preocupar-nos demasiado com os gregos. São vítimas de um infortúnio que também afecta outros povos.”

Recorrendo a estereótipos que ainda continuam a ter aceitação na Europa setentrional, um jornal alemão escreveu: “Será que a população das cidades gregas, que actualmente parece ser constituída apenas por traficantes, agentes do mercado negro, receptadores de bens furtados, ladrões e gente que não quer trabalhar, merece ser mantida viva através dos mantimentos do Eixo? Veremos durante quanto tempo poderão os países do Eixo, na sua árdua luta, continuar a sustentar uma população de milhões de ociosos.”

Toda a Europa sob o jugo alemão passou fome e outras privações, mas o tratamento foi desigual: os alemães foram mais brandos com os povos com que sentiam algumas afinidades, como os dinamarqueses, os holandeses, os belgas, os noruegueses e até os franceses, foram mais brutais e insensíveis com os povos balcânicos e piores ainda com os polacos e soviéticos – de acordo com Mazower, foi na URSS, Jugoslávia e Grécia que a morte pela fome atingiu grandes proporções.

Entretanto, a resistência grega, tirando partido da natureza montanhosa e da má rede de comunicações do país e da tradição de guerrilha contra o jugo otomano, foi mostrando-se particularmente activa, o que explica (não justifica) a ferocidade das represálias, que reduziram a cinzas centenas de aldeias e deixaram um milhão de gregos sem tecto. Mas se é verdade que os alemães executaram 21.000 gregos durante a ocupação, os italianos executaram 9.000 e os búlgaros, 40.000.

No início, o sector italiano da Grécia manteve-se relativamente calmo, embora ao lado, na Jugoslávia, as forças de ocupação italianas estivessem já a aplicar os métodos anti-guerrilha que aplicaram nas campanhas da Líbia e da Etiópia: campos de concentração, fuzilamento de reféns, aldeias arrasadas e política de terra queimada. Como comenta Mazower em Hitler’s Empire, só não recorreram a gás venenoso, uma “deferência” para com os povos de tez mais clara. Quando, no Outono de 1942, a guerrilha grega começou a causar estragos, os italianos rapidamente adoptaram as práticas já aplicadas na Jugoslávia. Não consta, porém, que o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi tenha recebido de Tsipras uma conta de milhares de milhões de euros para pagar.

A Itália pode alegar uma pequena atenuante: quando, em 1943, Mussolini foi deposto e um novo governo negociou um armistício com os Aliados, as tropa alemãs não só assumiram o controlo da zona italiana da Grécia como submeteram as tropas que dias antes eram suas aliadas ao mesmo tratamento que ambos dispensavam aos insurrectos gregos: execuções em massa. Só em Cefalónia foram executados 5300 soldados italianos por “traição” (isto é, por obedecerem ao seu novo governo). Nas ilhas de Corfu e Kos os alemães “limitaram-se” a executar todos os oficiais italianos.

Prudentemente, a Bulgária só fizera entrar as suas tropas na Jugoslávia e na Grécia depois de as tropas alemãs terem feito o trabalho perigoso e sujo, mas reclamou para si uma área de 16.000 km² no norte da Grécia (boa parte da Trácia e da Macedónia). Enquanto alemães e italianos se afirmaram como ocupantes, a Bulgária anexou esta área ao seu território e confrontou a população com esta opção: expulsão ou “bulgarização”.

No final de 1941, 100.000 gregos tinham sido expulsos (muitos foram enviados como trabalhadores-escravos para a Alemanha) e os que ficaram viram-se proibidos de usar a língua grega, foram expropriados de terrenos e casas em favor das dezenas de milhar de colonos búlgaros que se instalaram na região e ficaram sujeitos a um regime de trabalhos forçados. Quando, em Setembro de 1941, os gregos se revoltaram contra estas políticas iníquas, foram selvaticamente esmagados: só na cidade de Drama foram executados 3000 gregos e mais 15.000 morreram nas operações de contra-insurgência em torno da cidade.

Evans (The Third Reich at War) estima que a repressão pelos búlgaros das revoltas gregas de Setembro de 1941 terá causado 45.000 a 60.000 mortos. As condições no território anexado pela Bulgária eram tais que muitos gregos procuraram refúgio no sector alemão. Porém, Alexis Tsipras não se apressou a visitar o memorial às vítimas do levantamento de Drama e Boyko Borissov, primeiro-ministro búlgaro, não foi confrontado pelo governo grego com pedidos de reparações.

Se se quiser levar a contabilidade deste período negro da história dos Balcãs, o próprio governo grego poderia ser confrontado com uma factura incómoda: as relações entre os gregos e os cham, albaneses muçulmanos que viviam em território grego, nunca tinham sido boas e agravaram-se quando vários bandos cham colaboraram entusiasticamente com o Eixo na pilhagem e repressão do povo grego. Tal serviu de pretexto para que, em Setembro de 1944, a guerrilha nacionalista grega (EDES) desencadeasse (nas palavras de oficiais britânicos presentes na região) “uma orgia de vingança”: só em Paramithia os gregos terão morto 600 homens, mulheres e crianças cham. Os que escaparam aos massacres foram expulsos para o território albanês.

Porém, se Edi Rama, o primeiro-ministro albanês, apresentasse hoje aos gregos a conta do que fizeram em Paramithia em 1944, estes poderiam alegar que apenas estavam a fazer justiça pelo que os cham fizeram em Paramithia em 1943: numa acção conjunta com os alemães, os cham tinham executado 200 civis gregos e destruído 19 aldeias. O relatório do coronel Chris Woodhouse, chefe da Missão Militar Aliada na Grécia, concluía assim o relato desta pavorosa série de represálias: “Os cham tiveram o que mereciam, mas os métodos de Zervas [o líder do EDES] foram péssimos […]. O resultado foi uma deslocação de populações, removendo uma minoria indesejada do solo grego. Talvez seja melhor deixar as coisas como estão.”

Mas seria de esperar que os gregos tratassem “estrangeiros” de outra etnia e religião com maior humanidade se eles próprios começaram a envolver-se em ferozes lutas intestinas? As primeiras escaramuças tinham surgido em 1942, ecoando o que já acontecera na guerra de libertação contra os turcos, em 1824-25, mas foi a partir de finais de 1944, no vácuo de poder criado pela retirada alemã, que o conflito se agudizou – houve uma pausa em 1945-46, mas, na prática a Grécia esteve em guerra civil, opondo facções de direita (EDES) e esquerda (ELAS) até 1949.

No início, alguns dos ódios entre facções de guerrilha foram promovidos pelos alemães, que já tinham vindo a aplicar a técnica de dividir para reinar na Jugoslávia. Após um estímulo inicial, mediante a constituição pelos alemães de “batalhões de segurança” e esquadrões de morte, recrutados entre criminosos e arruaceiros e a quem foi dada “carta branca na guerra contra comunistas e bandidos” (Mazower, em Hitler’s Empire), os gregos rapidamente se engalfinharam num conflito sangrento sem necessidade de mais incitamento.

Seja como for, na Europa a questão das reparações da II Guerra Mundial parece ser um assunto estritamente alemão, que não diz respeito às outras potências do Eixo: Itália, Bulgária, Hungria e Roménia. A Itália parece ter sido absolvida de tudo pela rendição em 1943 e sobre os parceiros menores desceu um véu de olvido.

Tome-se o caso da Roménia e bastará recordar a perseguição e extermínio dos judeus da Bessarábia, Bukovina e Transnístria promovida pelo marechal Ion Antonescu, o ditador (conducatore) romeno. Os judeus não foram as únicas vítimas da ferocidade romena: na Transnístria (que pouco tem a ver com a Transnístria de hoje), habitada maioritariamente por ucranianos, a palavra de ordem era “pilhar e romenizar” e Antonescu deu instruções aos seus ministros para “tirar tudo quanto for possível da Transnístria, mas sem deixar registos escritos”.

Mas foi sobre os judeus que a fúria e o desnorte dos romenos se abateu mais implacavelmente: num ano, a combinação de pogroms, execuções em massa e deportações em condições desumanas causou 280.000 a 380.000 vítimas e revestiu-se de tal selvajaria que levou um elemento das SS a comentar que “as execuções sádicas levadas a cabo inadequadamente pelos romenos” deveriam ser implementadas segundo “procedimentos mais planeados”, uma apreciação que está em consonância com a de outro observador alemão: “Os romenos actuam contra os judeus sem a mais vaga ideia de um plano. Ninguém objectaria à eliminação maciça de judeus, não fosse os aspectos técnicos da sua concepção e execução serem tão deficientes.”

Em 1944, quando o Exército Vermelho se aproximava já das fronteiras romenas, relata Mazower (Hitler’s Empire) que “o Ministro da Defesa romeno sugeriu que se limpassem os locais dos massacres de forma a encobrir as atrocidades”, ao que o marechal Antonescu, que emitira ordens directas e explícitas para os massacres, retorquiu: “Do que está você a falar?”. A amnésia que atacou Antonescu parece ter-se estendido, entretanto, a quase todo o mundo.

Mas o país que se evade mais airosamente de responsabilidades na II Guerra Mundial é a Áustria: o facto de ter sido “anexada” pela Alemanha em 1938 tornou-a quase completamente invisível. A Áustria chegou mesmo a apresentar-se como a primeira vítima da Alemanha nazi, quando na verdade a sociedade austríaca acolheu genericamente de bom grado a “união” com a Alemanha (um plebiscito – realizado em condições duvidosas, é certo – deu 99.7% de aprovação à anexação) e forneceu às altas esferas nazis várias figurões e criminosos de guerra notórios, como Otto Skorzeny, Odilo Globocnik ou Adolf Eichmann.

Não seria descabido remeter para o governo austríaco parte da factura de 278.000 milhões de euros exigida à Alemanha: atendendo à proporção das suas populações, caberia aos austríacos uma quota de 1/10 da soma total, acrescida de uma sobretaxa por o responsável último da guerra – Hitler – ser austríaco.

Também o melhor aliado que a Alemanha teve entre 1939 e 1941 foi automaticamente ilibado em Junho de 1941, quando Hitler invadiu o seu território. No entanto, até essa data, a URSS tivera um comportamento tão reprovável aos olhos da comunidade internacional como a Alemanha: invasão da Polónia (Setembro de 1939) e da Finlândia (Novembro de 1939), fornecimento de alimentos e matérias-primas (incluindo petróleo) indispensáveis ao esforço de guerra nazi, cedência (discreta) de uma base de apoio a submarinos alemães no Mar de Barents. Em Junho e Julho de 1940, ao ver que Hitler levava de vencida a França e a Grã-Bretanha, a URSS sentiu-se à vontade para ocupar a Lituânia, Letónia e Estónia, e roubar um substancial naco da Roménia (Bukovina e Bessarábia) – afinal de contas já tinha sido expulsa da Sociedade das Nações pela invasão da Finlândia, que mais tinha a perder?

A França e a Grã-Bretanha, que tinham entrado na guerra em resposta à agressão alemã à Polónia, nunca se sentiram tentadas a declarar guerra à URSS por ter feito a mesma coisa. Pior do que isso, como assinala Laurence Rees em World War II: Behind Closed Doors (editado em Portugal como A II Guerra Mundial: À Porta Fechada, pela Bertrand), “não só o governo britânico sabia das atrocidades que os soviéticos estavam a perpetrar na Polónia Oriental, como também estava ansioso por se calar acerca delas – embora, como é evidente, condenasse abertamente os nazis na Polónia Ocidental por cometerem crimes semelhantes”. O desencadear da Operação Barbarossa limpou o pesado cadastro da URSS e fê-la passar, automaticamente, de carrasco a vítima

E que juízo pode fazer-se dos países ditos neutrais? Quantos milhares de vidas teriam sido poupadas se Portugal tivesse interrompido o fornecimento à Alemanha de tungsténio, um metal crucial para o fabrico de armamento? E em que posição fica a Suécia, que foi um dos principais fornecedores de minério de ferro indispensável ao esforço de guerra germânico e que, em 1941, permitiu o trânsito por território sueco de tropas alemãs entre a Noruega e a Finlândia, onde se juntaram às unidades que invadiram a URSS? A Suíça, que aceitou converter em francos suíços o ouro pilhado pelos alemães aos bancos centrais dos países ocupados, não deveria ser chamada a prestar contas?

Não só estes “delitos menores” não foram punidos como até a Alemanha conseguiu sair do imbróglio das reparações de guerra com poucas despesas – quando se considera a devastação e sofrimento que causou – e limitou-se a fazer alguns pagamentos a Israel, Polónia, Jugoslávia e URSS (nestes dois últimos casos sob a forma da entrega de equipamento fabril), além do já mencionado pagamento à Grécia de 150 milhões de marcos, em 1960.

É instrutivo confrontar este desfecho com o da I Guerra Mundial, em que os Aliados impuseram pesadíssimas reparações à Alemanha – a Áustria, a Hungria e a Turquia escaparam-se porque estavam financeiramente arruinadas. As quantias exigidas à Alemanha – primeiro de 269 mil milhões de marcos, ajustados em 1921 para 132 mil milhões – eram colossais. Na prática, acabaram por ser acordados montantes mais realistas e mesmo estes pagamentos sofreram adiamentos sucessivos, pois a economia alemã dos anos 20 e 30 passou por várias crises sérias.

Do lado aliado nem todos concordaram com estas reparações – e um deles foi o economista John Maynard Keynes, que fora delegado do Tesouro Britânico na conferência que resultou no Tratado de Versailles e que considerava as reparações impostas à Alemanha excessivamente pesadas, tese que expôs no livro The Economic Consequences of Peace, de 1919, em que lamentava que os ideais do presidente americano Woodrow Wilson tivessem sido suplantados pela visão vingativa e mesquinha do primeiro-ministro francês Georges Clemenceau, secundado pelo primeiro-ministro britânico David Lloyd George.

Ainda hoje os economistas discutem se as reparações impostas à Alemanha seriam excessivas e se o seu pagamento integral conduziria inevitavelmente ao colapso da economia alemã. Mas, o que é indesmentível é que o povo alemão as sentia como excessivas e injustas e isso contribuiu decisivamente para que dirigissem as suas simpatias e o seu voto para um líder que fez campanha com o slogan “Não pagamos!”. Chamava-se Adolf Hitler e, efectivamente, cancelou os pagamentos das reparações assim que se tornou chanceler. Os pagamentos só seriam reatados muito mais tarde – o derradeiro foi realizado a 3 de Outubro de 2010, 92 anos após o término das hostilidades.

Independentemente das discussões em torno dos montantes das reparações, a verdade é que a I Guerra Mundial foi mal concluída e deixou latentes as tensões que haveriam de estoirar em 1939. Ao reconhecer que a lógica vingativa que presidira ao Tratado de Versailles tinha sido contraproducente, os vencedores da II Guerra Mundial foram mais benévolos para com os derrotados e não se empenharam em extrair da Alemanha (e do Japão) as compensações pelos estragos e sofrimento causados – e isto apesar de a culpa da Alemanha na II Guerra ser bem mais pesada e inequívoca do que na I Guerra.

A II Guerra Mundial foi um momento tão monstruoso, infame e vergonhoso da história da humanidade (e em particular da história da Alemanha), o novelo de crimes, represálias e contra-represálias é tão emaranhado, que qualquer tentativa de ajuste de contas redundará necessariamente em fracasso e despertará um enxame maligno de ódios e recriminações.

Os alemães tinham-se comportado como bestas, mas a Europa iria ter de continuar a viver com eles. Assim, o caminho tomado pelos vencedores seguiu, em linhas gerais, a posição do chefe da Missão Militar Aliada na Grécia a propósito do antagonismo greco-albanês: “Talvez seja melhor deixar as coisas como estão.” A única forma de os europeus continuarem a viver juntos em paz passa não por esquecer o passado, mas por aceitar não guardar rancores e ressabiamentos sobre o momento mais negro e desvairado da sua história.

Tsipras poderia ter escolhido como gesto simbólico de início de mandato algo que desse a entender que estava decidido a acabar com a natureza clientelar do Estado grego, a combater a economia “informal” ou a montar uma máquina fiscal equitativa e eficaz – um país que tem um PIB per capita da ordem dos 19.000-20.000 euros e atravessa uma “grave crise humanitária” tem, necessariamente, graves assimetrias na distribuição dos rendimentos.

Em vez disso, escolheu visitar Kaisariani, o que representa uma quebra de um entendimento tácito de “deixar as coisas como estão” entre as nações europeias e, ao mesmo tempo, sugere que a crise grega resulta sobretudo de causas exteriores, do “dedo estrangeiro”. Mark Mazower, citado num artigo recente no jornal Ekathimerini, aponta à Grécia uma tendência para atribuir os seus infortúnios à escassa liberdade de manobra e à sujeição a países poderosos. Agora os alemães, antes os turcos, antes ainda os romanos – desde 146 a.C., quando as legiões romanas derrotaram as falanges gregas em Corinto, que há estrangeiros a impor à Grécia o seu diktat e a impedi-la de ser livre, feliz e próspera.

Tsipras tem o pleno direito de entender injustas e inadequadas as condições impostas, no âmbito do resgate financeiro, pela troika e pela Alemanha e de lutar para as tornar mais favoráveis com todas as suas energias, mas escusava de voltar a abrir a caixa de horrores que foi a II Guerra Mundial. Parafraseando uma personagem de Ulisses, de James Joyce, a história é um pesadelo de que a Europa tem estado a tentar despertar – mas após 70 anos de relativa tranquilidade, há quem queira puxá-la novamente para dentro do pesadelo.

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