A questão do aborto e eu

Sempre fui contra o aborto porque considero que um ser humano existe no ventre materno a partir da concepção e que abortar, ou como tão educadamente se diz “Interrupção Voluntária da Gravidez”, é tão grave ou pior que o acto de matar um ser humano já nascido. O Papa descreveu o aborto como o genocídio do nosso tempo, e apesar de não ser católico, é essa também a minha opinião. É claro que existem excepções em que terminar a gravidez podem ser consideradas tais como em casos de violação, quando a saúde da mãe está em perigo ou ainda quando se tem a certeza que a criança não sobreviverá o nascimento.

Ao longo do debate nacional sobre a IVG fui confrontado por muita gente que apoia a IVG e fui acusado de ser “menino bem”, de não saber nada da vida, que devia sair do pedestral e conhecer a vida, etc. Aqui vai a minha resposta a essas acusações.

Desde o meu nascimento e até aos meus 7 anos morei com a minha Mãe e os meus avós no Bairro Clemente Vicente no Dafundo. Para quem não conhece esse bairro, foi construido nos anos 40 para albergar famílias pobres e carenciadas. Fica à beira da Marginal entre Algés e a Cruz-Quebrada. Em 1966 a minha Mãe conheceu um homem 14 anos mais velho que ela que a seduziu e lhe pediu em casamento, pedido esse que foi aceite. Quando ela engravidou comunicou o facto ao meu pai biológico e este levou-a para casa dizendo-lhe para nunca mais a procurar. Pelo que me foi contado por ela anos mais tarde, um dia em Lisboa a minha mãe foi ameaçada de morte pelo meu pai biológico ainda durante a gravidez e disse que não o fazia por ela estar grávida. Entretanto depois de eu ter nascido estranhei a dada altura o facto de eu não ter um pai e os meus outros amigos o terem. Em 1973 a minha mãe conheceu um oficial da Força Aérea e casou com ele. No ano seguinte ele registou-me como seu filho, e é o nome dele que eu tenho em Portugal.

Antes do casamento da minha mãe era muitas vezes chamado de “parasita”, “bastardo”, entre outros adjectivos nada agradáveis ao ouvido. Depois do casamento fui confrontado várias vezes por pessoas conhecidas com palavras idênticas. Nunca disse nada a ninguém e guardei tudo isso para mim. Quando a minha mãe casou eu estava muito contente porque a tinha encorajado bastante a tomar essa decisão, e também porque eu gostava muito daquele que viria a ser o meu pai adoptivo, aquele que foi realmente o meu pai.

Durante a puberdade todos nós crescemos e queremos descobrir quem somos e ganhar raízes para a vida adulta. Falar sobre o meu pai biológico era um assunto tabú, por isso proibido. Quando fazia alguma pergunta esta era repelida com uma enorme violência verbal e eu era acusado de ser ingrato para com o meu pai adoptivo, quando nada disso estava em causa. Eu apenas queria conhecer o meu pai biológico, nada mais. A dada altura foi-me dado um nome e depois de muito investigar com a ajuda do Padre João Soares Cabeçadas, de S. João do Estoril e da minha professora de Moral e Religião, Teresa Câmara, encontrei por acaso em casa dos meus avós maternos um processo de paternidade que a minha mãe tinha posto em tribunal pouco depois do meu nascimento. Aí fiquei a saber o verdadeiro nome do meu pai biológico, o seu endereço e a sua profissão. Fui procurá-lo juntamente com a professora Teresa Câmara numa tarde de sábado. Falei com a mãe dele, a minha avó paterna, e ela disse que ele tinha saído com a mulher e a filha, que tinham ido a Lisboa. Fiquei desiludido mas parece que os meus esforços não foram em vão porque a minha avó biológica quis conhecer-me. Encontrou uma vez a minha mãe e disse que me queria conhecer, pedido esse que foi negado pela minha mãe sob o pretexto que eu agora tinha uma família. Ouvi-a a relatar essa conversa ao meu pai adoptivo, mas até hoje eles não sabem que eu ouvi essa conversa. Achei a minha avó biológica muito parecida comigo, ficámos petrificados a olhar um para o outro pois sabiamos quem éramos. Falou-me com ternura, e isso nunca vou esquecer. Estava vestida com uma camisola de malha branca e tinha lindos cabelos grisalhos. Estava um pastor alemão à entrada. Não voltei por muitos anos à Rua de Angola em Paço d’Arcos.

Quando a minha mãe descobriu que eu tinha procurado o meu pai biológico foi um enorme problema, mas não estou arrependido. Entretanto consegui falar com ele uma vez em Fevereiro de 1996, depois de lhe escrever uma carta, e ele jura a pés juntos que nada tem a ver com a minha paternidade e recusa fazer um teste de paternidade. Porque será? Tem medo, eu sei. Disse-lhe que sabia ter uma irmã e que esperava que o que ele fez à minha mãe nunca lhe acontecesse a ela, e se eu soubesse que o mesmo lhe tinha acontecido, que eu seria o primeiro a ir ajudá-la. O meu pai biológico respondeu “paciência, foram coisas que aconteceram e foram resolvidas no lugar certo e que não queria falar mais nisso”. Apesar de não querer falar, não retira o facto de eu ser seu filho biológico e que ele fugiu às suas responsabilidades e que por mais que ele tente esconder ou não se querer lembrar, foi ele que me gerou. Se em 1966 houvesse testes de paternidade ele não teria tido a mínima hipótese de negar a minha paternidade.

Agora para aqueles que me acusam de não conhecer nada da vida, leiam isto e pensem antes de escreverem a acusarem-me de coisas que não conhecem.

Update 27 de Novembro de 2008

Toda esta história, juntamente com outros factores na minha vida profissional entre 2004 e Junho de 2006, fizeram que entre Junho e Dezembro de 2006 eu estivesse em casa de baixa com uma depressão nervosa e um esgotamento, para os quais ainda hoje estou medicado.

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